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Quando o crime se torna digital: Lições do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026

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Written by:

Diego Baldin

agosto 5, 2026

Quando o crime se torna digital: Lições do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 featured image

Para ler este blog em português, clique aqui.

Uma das publicações de segurança pública mais importantes do Brasil, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, citou este ano dados do relatório Tendências de Fraude em Bancos Digitais na América Latina 2026, da BioCatch, para ajudar a explicar como o crime organizado está evoluindo.

Para quem passou quase duas décadas atuando em prevenção a fraudes, ver nossa pesquisa citada foi gratificante. Mas a citação em si importa menos do que aquilo que ela representa. Os dados comportamentais que os bancos coletam todos os dias já não ajudam apenas as instituições financeiras a impedir golpes. Eles estão se tornando uma importante fonte de insights sobre como o próprio crime está mudando.

Durante anos, a fraude foi tratada principalmente como um problema dos bancos. Esperava-se que as instituições evitassem transações não autorizadas, ressarcissem as vítimas e reforçassem seus controles de segurança. Mas o Anuário apresenta um argumento convincente de que essa perspectiva já não é suficiente.

À medida que os golpes se tornam mais organizados e conectados, a fraude passou a ser uma questão de segurança pública que nenhuma instituição consegue resolver sozinha.

 

O crime patrimonial migrou para o mundo digital

 

O Anuário destaca como a natureza do crime patrimonial no Brasil está mudando.

Enquanto várias categorias de roubo recuaram, a fraude se tornou a principal modalidade de crime patrimonial no Brasil. Em 2025, o país registrou 2.261.055 casos de fraude, uma média de 258 por hora. Desde 2018, os registros de fraude cresceram quase 430%.

Isso não significa que o crime tradicional desapareceu. Na verdade, uma parcela cada vez maior da atividade criminosa migrou para a economia digital, onde ela costuma ser mais escalável, mais lucrativa e menos arriscada.

Na minha visão, os criminosos perceberam uma lógica relativamente óbvia: um roubo físico alcança poucas vítimas e expõe o autor a risco imediato, enquanto um golpe digital pode atingir milhares de pessoas em vários estados e instituições financeiras sem que o criminoso jamais encontre presencialmente a vítima.

A pergunta, então, é: Como são esses ataques digitais hoje?

 

Os fraudadores se adaptaram. A prevenção a fraudes também precisa se adaptar.

 

O Anuário cita dados da BioCatch para ajudar a explicar como a fraude está evoluindo na América Latina. Na região, em 2025, nossa pesquisa identificou:

  • As tentativas de golpe aumentaram 155%.
  • O uso de ferramentas de acesso remoto para fraude cresceu mais de cinco vezes.
  • Os ataques de malware aumentaram 225%.
  • As fraudes envolvendo celulares roubados aumentaram 344%.
  • As contas laranja identificadas aumentaram 42%.

No Brasil, nossos clientes relataram um aumento de aproximadamente 140% nos golpes de falsidade ideológica e de cerca de 340% nas fraudes envolvendo celulares roubados.

Todas as tendências apontam na mesma direção. À medida que os bancos dificultam o roubo de credenciais, os fraudadores passam a manipular clientes legítimos, comprometer dispositivos confiáveis, explorar celulares roubados que já dão acesso à identidade digital da vítima e combinar várias técnicas em um único ataque.

Conforme os controles de segurança evoluem, os criminosos simplesmente migram para o próximo ponto mais frágil da cadeia de ataque.

 

A identidade já não é suficiente

 

Durante anos, a prevenção a fraudes girou em torno de uma pergunta: Esta pessoa é realmente quem afirma ser? Essa pergunta continua essencial, mas hoje os times de fraude precisam responder cada vez mais a uma segunda questão, muito mais difícil: Mesmo quando se trata do cliente legítimo, ele está agindo por vontade própria?

Em muitos golpes de engenharia social, as vítimas se autenticam com as próprias senhas, dispositivos confiáveis e credenciais legítimas. A autenticação funciona exatamente como foi projetada. O problema é que outra pessoa está influenciando a sessão por meio de uma ligação, de uma conversa no WhatsApp ou de uma ferramenta de acesso remoto. O criminoso não precisa invadir o banco. Ele apenas convence o cliente legítimo a autorizar a transação.

É por isso que o chamado “golpe do Pix” raramente começa no Pix. O pagamento é apenas a etapa final de um ataque que pode ter começado com um falso atendente do banco, um anúncio fraudulento, um site falso, um malware ou um celular roubado. Quando o dinheiro se move, boa parte da fraude já aconteceu.

 

Nenhuma instituição vê tudo

 

É também por isso que uma das conclusões mais importantes do Anuário é que campanhas de conscientização e penas mais duras, embora necessárias, não resolvem o problema por si só. A fraude moderna raramente ocorre dentro de uma única organização. Ela se desdobra em um ecossistema digital conectado.

A instituição destinatária vê a conta que recebe os recursos. A operadora de telecomunicações tem informações sobre o dispositivo e a linha telefônica. A plataforma digital pode ver o anúncio, o perfil falso ou a mensagem usada para iniciar o golpe. As forças de segurança detêm inteligência sobre investigações, redes criminosas e vínculos entre suspeitos.

Cada organização tem uma peça importante do quebra-cabeça, mas muito poucas conseguem montar o quadro completo.

O Anuário ressalta que enfrentar os golpes exige coordenação nacional, integração operacional em tempo real e responsabilidade compartilhada por todo o ecossistema. Para mim, essa é a mensagem mais importante do relatório.

Os criminosos já operam como redes conectadas. Eles compartilham dados, infraestrutura, roteiros, contas laranja e táticas entre organizações e jurisdições. A prevenção a fraudes, em comparação, ainda atua com frequência dentro das fronteiras de cada instituição. Nenhum banco, por maior ou mais sofisticado que seja, consegue deter um esquema de fraude que atravessa várias organizações em segundos.

A oportunidade está em conectar sinais que, isoladamente, parecem irrelevantes. Uma mudança no comportamento do cliente durante uma sessão bancária, somada a um dispositivo suspeito, a vínculos com infraestrutura criminosa conhecida e à inteligência compartilhada entre instituições, forma um quadro muito mais consistente do que qualquer organização conseguiria montar isoladamente.

Foi isso que tornou a citação do Anuário tão significativa para mim. Não se trata apenas de a pesquisa da BioCatch aparecer em uma das principais publicações de segurança pública do Brasil. É que a fraude passou a ser vista sob uma lente fundamentalmente diferente.

À medida que os golpes se tornam mais organizados e interconectados, proteger os consumidores dependerá menos do que cada instituição consegue ver e mais de quão bem todo o ecossistema trabalha em conjunto.

Principais conclusões:

 

  • A fraude se tornou a principal modalidade de crime patrimonial no Brasil em 2025, com mais de 2,26 milhões de casos registrados.
  • Os criminosos manipulam cada vez mais clientes legítimos, em vez de apenas roubar credenciais.
  • Quando o pagamento é feito, boa parte da fraude já ocorreu.
  • Nenhuma instituição possui todas as informações necessárias para deter os golpes modernos. Uma prevenção eficaz depende de inteligência comportamental, compartilhamento de informações e colaboração entre os setores público e privado.

 

Recursos:

 

 

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